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Editora: 12min
A encefalopatia traumática crônica — CTE, na sigla em inglês — é uma doença neurodegenerativa associada a pancadas repetidas na cabeça. No cérebro, ela se manifesta como um acúmulo anormal de uma proteína chamada tau. Entre os sintomas descritos estão perda de memória, dificuldade de atenção, problemas de controle de impulso, ansiedade, depressão, problemas com raiva, dores de cabeça e demência.
Ela aparece com mais frequência em quem pratica esportes de contato, como futebol americano, hóquei e futebol, mas já foi detectada também em cérebros de militares feridos em explosões e em pessoas que passaram por situações de violência doméstica.
E tem uma característica que complica tudo: só pode ser diagnosticada com certeza depois que a pessoa morre. Isso significa que, para saber quantos ex-atletas têm a doença, é preciso examinar cérebros doados — e quem doa não é uma amostra qualquer da população. Em geral, são famílias que notaram sintomas enquanto a pessoa estava viva e por isso procuraram os pesquisadores.
Foi daí que veio o número que circulou nos últimos anos: uma análise anterior encontrou CTE em 99% dos ex-jogadores da NFL, a principal liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos, que haviam doado o cérebro para pesquisa. A cifra é real, mas descreve um grupo autosselecionado, não o conjunto dos ex-jogadores. É esse buraco que o estudo divulgado na terça-feira tenta fechar.
Pesquisadores do Mass General Brigham, da Universidade de Boston e da Concussion & CTE Foundation — muitos deles envolvidos na pesquisa anterior — partiram do outro lado da conta: em vez de olhar só para quem doou, olharam para o total de mortes de ex-jogadores da NFL registradas entre 2008 e 2021, cruzando certidões de óbito com os casos de CTE confirmados nos bancos de cérebros. Depois estreitaram o recorte para o período de 2016 a 2021, quando houve o maior número de doações.
Nesse intervalo, morreram 878 ex-jogadores. Desses, 235 doaram o cérebro, e 215 receberam o diagnóstico de CTE. Ou seja: pelo menos um em cada quatro dos que morreram tinha a doença — porque não se sabe o que havia no cérebro dos que não doaram.
O trabalho saiu na revista científica BMJ. Um editorial publicado junto o descreve como "uma das estimativas mais informativas até hoje sobre a carga de CTE entre ex-jogadores da NFL". O estudo também encontrou demência com frequência entre os doadores.
Daniel Daneshvar, autor principal e chefe de medicina física e reabilitação do Mass General Brigham e professor associado da Harvard Medical School, lembra que lesões cerebrais traumáticas repetidas já são fator conhecido para doenças neurodegenerativas. "Nós e outros mostramos que, entre jogadores da NFL especificamente, há uma taxa de morte por doença neurodegenerativa cerca de quatro vezes maior que a da população em geral", disse.
O ponto que os autores repetem não é sobre a liga profissional. "A maior parte dos impactos na cabeça que esses ex-jogadores da NFL sofreram não aconteceu no nível da NFL. Aconteceu no nível universitário, no ensino médio e, em muitos casos, no juvenil. E todas essas pancadas cumulativas somaram para resultar em risco aumentado", afirmou Daneshvar.
Dentro de cada um desses níveis, há ainda uma segunda divisão. "Sabemos que quase 70% dos impactos na cabeça ocorrem no treino", disse ele. "Então, sem mudar um único minuto de tempo de jogo em nenhum desses níveis, é possível reduzir substancialmente a carga cumulativa de impactos na cabeça que essas pessoas acumulam ao longo da vida."
O acordo coletivo de trabalho da NFL de 2011 limitou o número de treinos com contato durante a temporada. O acordo em vigor foi ratificado em 2020 e vale até março de 2031. Fora da liga profissional, a Ivy League proibiu o contato pleno nos treinos cinco anos depois da mudança de 2011.
Em 2016, a Suprema Corte dos Estados Unidos abriu caminho para o acordo da NFL com milhares de jogadores aposentados em ações relacionadas a concussões. Jogadores de destaque que tiraram a própria vida, entre eles Junior Seau, Dave Duerson e Aaron Hernandez, tiveram CTE identificada na análise de seus cérebros após a morte.
Procurada, a liga afirmou por meio de um porta-voz que "busca continuamente tornar o futebol americano mais seguro, inclusive implementando estratégias para reduzir concussões e impactos na cabeça", e que segue comprometida em garantir que a comunidade da NFL tenha acesso a recursos para melhorar seu bem-estar físico e mental, incentivando ex-jogadores a procurar tratamento quando estiverem preocupados com a própria saúde.
Rachel Grashow, diretora de iniciativas de pesquisa do Football Players Health Study, da Universidade Harvard, que não participou da pesquisa, considera o estudo "importante", mas faz uma ressalva sobre como o número tende a ser lido. O diagnóstico de CTE nem sempre corresponde à presença de sintomas: a doença é classificada em quatro estágios, conforme a localização e o acúmulo da proteína tau.
"A comunidade científica olha para esse artigo e diz: 'Certo, agora temos um denominador. Sabemos quem tem essas proteínas e quem não tem. Isso ajuda'. A preocupação é que o resto do mundo veja esse número e diga 'isso são sintomas'", afirmou.
Para ela, a pergunta aberta é separar quem teve sintomas e por quê — se aconteceram por causa da CTE ou se foram apenas amplificados por ela. "Lesão na cabeça é absolutamente ruim para você, e causa testosterona baixa, causa apneia do sono, causa depressão, causa pressão alta, causa zumbido. Causa um monte de coisas que são ruins, e essas coisas, se não tratadas, são muito ruins para o cérebro. E não sabemos quanta tau se acumula ou como isso interage com a lesão cerebral. É um grande ponto de interrogação."
O dado a acompanhar daqui para frente não é mais se a NFL reconhece a existência do problema — ela já limitou treinos com contato desde 2011, respondeu a ações de milhares de aposentados e diz publicamente que trabalha para reduzir impactos na cabeça. É se as mesmas restrições descem para os níveis onde o próprio estudo localiza a maior parte do dano acumulado.
Daneshvar é explícito sobre isso: "Se as mudanças implementadas no nível da NFL, incluindo reduzir a quantidade de contato nos treinos para menos de um por semana, forem propagadas nos níveis universitário, de ensino médio e juvenil, os atletas ficariam em situação melhor."
Isso dá a quem convive com atletas jovens de futebol americano — pais, escolas, técnicos — duas perguntas concretas e verificáveis: quantos treinos com contato pleno por semana a instituição permite, e se essa política foi revista desde a publicação do estudo. Pela referência citada pelo autor, menos de um por semana é o patamar que já vigora no nível profissional.
Para quem já jogou, a recomendação do mesmo pesquisador é procurar avaliação com um especialista em doenças neurodegenerativas ao notar sintomas cognitivos. E vale carregar junto a ressalva de Grashow: o "1 em 4" descreve a presença da doença nos cérebros examinados, não a proporção de pessoas com sintomas — quanto do sofrimento vem da CTE e quanto vem de outros efeitos das pancadas na cabeça, como depressão, apneia do sono e pressão alta, continua sem resposta.
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